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| 17/01/2008 |
A Flor

Los Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante/Marcelo Camelo
Ouvi dizer que o teu olhar ao ver a flor Não sei por que achou ser de um outro rapaz Foi capaz de se entregar Eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim Mas mesmo assim... Minha flor serviu pra que você achasse alguém Um outro alguém que me tomou o seu amor E eu fiz de tudo pra você perceber Que era eu... Tua flor me deu alguém pra amar E quanto a mim? Você assim e eu, por final sem meu lugar E eu tive tudo sem saber quem era eu... Eu que nunca amei a ninguém Pude, então, enfim, amar...vai!
Escrito por Aquinei Timóteo às 19:19:18
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| 15/01/2008 |
Os personagens
 A máquina de escrever seguia implacavelmente o seu itinerário. No canto superior da escrivaninha estavam sobrepostos Dostoiévski, Mary Shelley e Franz Kafka. Nihil parava de vez em quando o seu ofício, bebia um gole de vodca, sorvia um trago do cigarro e recostava-se despretensiosamente sobre sua cadeira. Depois recomeçava o texto. O crec-crec da máquina era o único som audível no pequeno cubículo. O escritor parecia está em transe. Os dedos não paravam. Da tez escorria uma gota de suor. Nihil, apesar de jovem, mantinha o hábito antediluviano das máquinas de escrever. Suas histórias eram fracas, inconsistentes; contudo, considerava-se um escritor. O crec-crec continuava. A história ia tomando forma. Subitamente Nihil ouviu uma voz. Andou pelo quarto, foi até a porta e nada! A mesma vozinha renitente começou de novo, só que agora mais forte: “Você é o culpado!”, disse em tom acusador. O escritor levantou-se sobressaltado julgando ser tudo aquilo resultado da bebida. Observou cada recanto do quarto, cada fresta; mas tudo permanecia como sempre estivera: toda a mobília recolhida à sua mudez eterna. Sentou-se de novo. O rosto convulsionado, as mãos frias e trêmulas. “Você é o culpado!” “Quem me acusa? De que sou culpado?”, retrucou Nihil, tentando recuperar o fôlego. “Acuso-te do destino que me coubeste. Da lamúria, da minha dor, da solidão que eu não almejava sentir. Em suma, recai sobre ti o peso da minha vida e agora hás de pagar o quinhão que me deves!” “Pagar... mas quem é você?” “Ora, ora Nihil... sou tua criação!” “O quê?” “Sou o teu personagem!”, disse a voz, com uma nota de sarcasmo. O escritor deixou cair uma barulhenta gargalhada. Depois se calou. Ficou longo tempo olhando para a folha em branco. “Meu personagem?”, indagou Nihil. “Sim!” “O que você quer de mim?” “Quero que você sofra!” “Mas isso é ilógico! Sou criador e você criatura. Você só existe porque eu te criei”, sentenciou o escritor. “Você tem certeza disso?”, alfinetou o personagem. “Sim, tenho!”, respondeu Nihil. “Está vendo aquela janela com vitrais?” “Sim, estou.” “Tente abri-la.” “Mas isso é ridículo!”, retrucou o escritor. “Abra-a!”, insistiu o personagem. Nihil levantou-se. Olhou para a janela. Nunca lhe ocorrera antes que uma coisa tão simples quanto abrir uma fechadura fosse soar tão aterrador. Ficou longo tempo refletindo sobre a singularidade da questão. “O que poderia haver além daquela janela comum, senão o mundo lá fora?”, pensou. O escritor segurou o ferrolho. Lentamente foi destrancando a janela. Quando a abriu por completo nada viu, a não ser uma tenebrosa escuridão. “Rá! Rá! Rá! Rá!”, o personagem não conteve o riso. “O que significa isso?”, indagou Nihil. “Significa que você também é um personagem... Rá! Rá! Rá! Rá...!” “Não, não pode ser! Eu tenho uma vida...” “Claro que você tem uma vida! A vida que alguém imaginou para você!”
Escrito por Aquinei Timóteo às 18:30:57
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