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| 07/02/2008 |
Um pré-conto para o conto de Murilo Rubião

O samovar aquecia. O chá destilava um cheiro agradável. Sentados ao redor de uma mesa conversavam Alexandre Saldanha Ribeiro e o velho Dimitri. A proximidade dos dois homens conferia à sala uma estranha atmosfera, falavam à meia voz, como um casal de namorados. A mão de Alexandre caiu subitamente sobre a de Dimitri, os olhos franziam como que alucinados por uma estranha excitação, vez ou outra soltavam risinhos, que gradativamente iam evoluindo até o status das guturais gargalhadas. O chá ficou pronto. Dimitri serviu as duas xícaras. Na igreja antiga os sinos denunciavam o anoitecer. Os repiques vinham em notas suaves bão... bão... bão..., parando e recomeçando – até recolherem-se à total mudez. “Minha filha, Ema, virá passar uns dias comigo”, falou Dimitri com a voz embargada. Alexandre enrubesceu. Sorveu um pouco do chá. Depois recolocou a xícara sobre a mesa. Observou por longo tempo os bordados da toalha, o rosto reclinado, absorto. “O que ela sabe sobre nós dois?”, disse finalmente, ainda com os olhos fixos na toalha. “Nada, absolutamente, nada! Ela supõe que eu ainda seja o mesmo. E, em certo sentido, é bom que as coisas fiquem assim...” “Assim..., como?!”, interrompeu Alexandre. “Assim como está. Eu sou o mesmo de sempre, ela não precisa saber de nada”, finalizou Dimitri, beijando levemente os lábios de Alexandre. Duas semanas depois chegava Ema. Seu cabelo em retrós, o semblante pálido, os gestos comedidos. O toc-toc-toc de seus sapatos sobre o assoalho era a única coisa que denunciava a sua presença. Dimitri foi pegá-la no aeroporto. “Oi, papai!”, gritou Ema, correndo em sua direção. “Oi, querida!”, retrucou o Velho. “Como você está linda!”, exclamou Dimitri em gesto tão efusivo que algumas pessoas voltaram o olhar para ele. “Vamos, vamos meu anjo. Pegue suas malas. A essa hora o trânsito é terrível”, asseverou Dimitri. Ema pegou uma das malas. Dimitri pegou a outra. E saíram do saguão do aeroporto. Naquela noite Alexandre não apareceu. Ema contava mil acontecimentos, a que Dimitri só respondia por monossílabos. “O quê que há papai?!”, indagou Ema. “Estou pensando em alguém”, respondeu o Velho despretensiosamente. “Uma mulher?!”, exclamou Ema dando risinhos. “Sim, sim uma M-U-L-H-E-R!”, respondeu pausadamente. Depois do jantar o Velho hauriu um gole de seu vinho predileto e foi dormir entre os cobertores impregnados do perfume de Alexandre. Tidom... tidom... tidom... A campanha soou. Ema foi atender a porta. Seus longos cabelos loiros não estavam mais presos. Vestia uma blusa transparente, deixando à mostra os bicos vermelhos de seus pequenos seios. “Oi?”, disse, segurando com a mão esquerda a porta. “Ô-ô-ô-ô-láááá...!”, respondeu Alexandre, totalmente mortificado com a tepidez dos olhos de Ema. E ficou longo tempo parado no limiar da porta – às vezes um pequeno evento carrega em si os resmungos da morte.
Escrito por Aquinei Timóteo às 13:40:18
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