Para além do bem e do mal

15/02/2008

Pertencer

Clarice Lispector


Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!
Escrito por Aquinei Timóteo às 19:45:20
[] [envie esta mensagem] []


12/02/2008

Saudade

Pablo Neruda


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Escrito por Aquinei Timóteo às 20:08:44
[] [envie esta mensagem] []



Poema 20



Pablo Neruda, 1924


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Escrito por Aquinei Timóteo às 19:23:36
[] [envie esta mensagem] []


11/02/2008

Línguas em português: o português macarrônico em Adoniran Barbosa e Antônio de Alcântara Machado

O aspecto social da língua é fato já bastante afirmado e reafirmado no interior dos estudos lingüísticos. Devido ao seu caráter estratificado ela consegue abarcar um grupo variado de falantes e de usuários da língua, reunidos por intermédio de trocas intersubjetivas, sígnicas e materiais que permitem a construção dos espaços políticos de comunicação e de identidade.
Eric Landowski, em seu livro “Presenças do outro”, aponta que a definição da identidade passa também pela aceitação de uma alteridade:

Com efeito, o que dá forma a minha própria identidade não é só a maneira pela qual, reflexivamente, eu me defino (ou tento me definir) em relação a imagem que outro me envia de mim mesmo; é também a maneira pela qual, transitivamente, objetivo a alteridade do outro atribuindo um conteúdo específico à diferença que me separa dele. Assim, quer a encaremos no plano da vivência individual ou da consciência coletiva, a emergência do sentimento de “identidade” parece passar necessariamente pela intermediação de uma “alteridade” a ser construída. (LANDOWSKI, 2002, p. 4)

A língua é um signo social e, nesse sentido, consegue aglutinar múltiplas variações lingüísticas utilizadas por diversos grupos distintos. Como a língua portuguesa apresenta uma grande heterogeneidade, conforme bem destacou Marcos Bagno, em “O preconceito lingüístico”, podemos observar que no Brasil, as diferenças regionais no uso da língua são bem caracterizadas e claramente definidas. Isso pode ser percebido pelo “chiado” no falar do carioca e do amazonense, pelo sotaque típico dos nordestinos ou mesmo pela influência de imigrantes – fato constatado na cidade de São Paulo – onde é grande a presença de italianos e seus descendentes. Também na fala dos gaúchos, que mantêm estreitos contatos culturais com seus vizinhos argentinos e uruguaios é patente a recorrência aos castelhanismos. Percebe-se com isso que a variabilidade lingüística em nosso país, passa também por um processo de maturação identitária. O nordestino se identifica com os signos utilizados em sua fala, assim como o carioca, o paulista, o maranhense e o gaúcho se identificam com os seus signos – contudo, o que os define não é a semelhança, mas as diferenças.

O que acontece é que em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico. (BAGNO, 2004, p. 52)

A língua portuguesa em sua variante paulistana, por exemplo, apresenta grandes semelhanças com a prosódia da língua italiana e isso se deve a fatores históricos. No período entre 1880 e 1930 o Brasil e a Europa passavam por grandes transformações. Lá, o alto crescimento da população e o acelerado processo de industrialização afetaram diretamente as oportunidades de emprego no continente, o que resultou numa intensa fuga demográfica da Europa. Aqui, o país estava passando por um período de fermentação das idéias abolicionistas. A Lei Eusébio de Queirós (1850) marcou o início do processo de abolição, proibindo o tráfico negreiro. A partir deste momento, começa a faltar mão-de-obra nas zonas cafeeiras. Ao mesmo tempo, surge no oeste paulista um grupo de fazendeiros de origem burguesa que defende o uso da mão-de-obra livre nas plantações de café. Nesse primeiro momento os italianos vão atuar nas grandes fazendas de café. Os imigrantes se concentraram principalmente na região sudeste. São Paulo recebeu 70% dos imigrantes italianos e em 1930 eles já correspondiam a 55% da população do estado. A forte presença italiana forjou uma arraigada identidade que se reflete na literatura e na música paulistanas. Nas canções de Adoniran Barbosa podemos observar a presença de uma variante do chamado português “macarrônico”, ou seja, o sambista justapõe traços da língua italiana e portuguesa no mesmo caldeirão e junta tudo isso numa linguagem margeada pela oralidade, pelos vícios e pelos “erros” comuns a camada popular. Essa mistura pode ser percebida na música “Um samba no Bexiga”, de 1956:
Um domingo nóis fumo
Num samba no Bexiga
Na rua Major,
Na casa do Nicola
A mezza notte o'clock,
Saiu uma baita de uma briga.
Era só pizza que avoava
Junto com as brajola.
Nóis era estranho no lugar
E não quisemo se meter.
Não fumo lá pra brigá,
Nós fumo lá pra comê.
Na hora H se enfiemo
Debaixo da mesa,
Fiquemo alí de beleza,
Vendo o Nicola brigá.
Dali a pouco
Escuitemo a patrulha chegá
E o sargento Oliveira falá:
"Não tem importânça,
Vou chamar duas ambulânça.
Carma pessoá,
A situação aqui tá muito cínica.
Os mais pior
Vai pras Crínica.

Nota-se no texto acima alguns indícios do que seria o retrato caricato da fala de uma faixa da população paulistana: os descendentes de imigrantes italianos moradores de alguns bairros, como o Bexiga e o Brás. Isso pode ser percebido nos “erros” de português, pela oralidade com que a música foi construída e pelo tom “macarrônico” do texto.
As “Novelas paulistanas”, do escritor Alcântara Machado, representam também um grande documento acerca da língua portuguesa em sua referência italiana, uma vez que o autor foi bastante fiel à oralidade – revelando sua preocupação em descrever os habitantes e os costumes das pessoas que moravam nos bairros periféricos da capital paulista, o que fez surgir um novo tipo de personagem na literatura brasileira: o ítalo-brasileiro. Das “Novelas paulistanas”, vamos analisar um trecho do conto “A sociedade”.
O capital levantou-se. Deu dois passos. Parou. Meio embaraçado. Apontou para um quadro.
- Bonita pintura.
Pensou que fosse obra de italiano. Mas era de francês.
- Francese? Não é feio non. Serve.
Embatucou. Tinha qualquer cousa. Tirou o charuto da boca, ficou olhando para a ponta acesa. Deu um balanço no corpo. Decidiu-se.
- Ia dimenticando de dizer. O meu filho fará o gerente da sociedade... Sob a minha direção, si capisce.
- Sei, sei... O seu filho?
- Si. O Adriano. O doutor... mi pare... mi pare que conhece ele?
Percebemos no excerto acima que a narrativa segue numa linguagem livre, próxima da coloquial. As características “italianizantes” são notadas no diálogo; assim como na expressão ilustrada pelo uso do português numa variedade lingüística “macarrônica”, muito arraigada à gramática italiana, com influência no vocabulário e nas construções.
Analisando a música de Adoniran Barbosa e o conto de Alcântara Machado, pudemos perceber que a língua desempenha um papel identitário e de reafirmação social. E que o português “macarrônico” é antes uma ferramenta que o imigrante utiliza para se inserir na história do português brasileiro – forjando uma espécie de italiano “abrasileirado”. Isso, aliás, vem ao encontro da proposta de Eni Orlandi (1996, 131): discutir os fenômenos cotidianos da língua, apontando suas diferenças e variações lingüísticas, já que é na língua que se explicitam as contradições, porque “a língua pertence a todos e é, ao mesmo tempo, o que temos de mais propriamente nosso. Lugar de reações à história e ao social e lugar de singularidade.”


BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. O preconceito lingüístico. São Paulo: Loyola, 2004

ORLANDI, Eni Puccinelli (1996). “O Teatro da Identidade – A Paródia como Traço da Mistura

Lingüística (Italiano/Português)”. In: Interpretação, Autoria, Leitura e Efeitos do Trabalho Simbólico. Petrópolis. RJ: Vozes, pp. 114 – 131.

BORDENAVE, Juan Díaz. O que é comunicação. 27ª reimpressão. São Paulo: Brasiliense, 2002. (Coleção Primeiros Passos)

LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro. São Paulo: Perspectiva, 2002.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Novelas paulistanas. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p 27

CD
EIis Regina no fino da bossa. v. 3, faixa7, 11.V030. V3. CD.

Escrito por Aquinei Timóteo às 20:20:14
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   



BRASIL, Norte, RIO BRANCO, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, Esperanto, Livros, Cinema e vídeo
MSN -







Histórico
Categorias
  Todas as mensagens
  Link



OUTROS SITES
    Mino Carta
  UOL - O melhor conteúdo
  Giselle Lucena
  BOL - E-mail grátis
  Um apelido
  hum... sugestível
  É grátis...
  aquinei
   O eco
  tropico
  João Bosco
  fotografia
  Jornalismo ambiental
  O indivíduo
  Escola de Comunicação e Artes da Puc
  UFSC
  Unicamp
  Studium
  Helder
  ambiente acreano
  ambiente Brasil
  reservas extrativistas
  Eco reporter
  ondas3
  eleições
  Amazônia
  Apremavi
  Ambiente Já
  Agir Azul
  Argonautas
  Banco de dados sobre as queimadas
  IPAM
  Akatu
  Socioambiental
  Imazon
  national
  PNUD
  Jornalismo ambiental
  SOS Amazonia
  WWF
  
src="http://widgets.uol.com.br/uolwidgetstools.js?estacao=cinema&tema=estreias&skin=1" type="text/javascript">
http://cinema.uol.com.br

" target="_blank">UOL CINEMA


VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog